terça-feira, 31 de agosto de 2010

Crescer é uma aventura interminável

Foto: Leyla Emektar – Turquia – menina com pássaros


“Navegar é preciso, viver não é preciso.”

Fernando Pessoa

Somos educados desde pequenos a viver corretamente, a seguir regras pré-estabelecidas; o problema é que ninguém nos ensina a existir. Existir não é recurso pronto, é um caminho de autodescoberta constante, requer estar atento ao mundo interior e seus sinais. É preciso desenvolver uma percepção do que é confortável para nós, e o que de fato move nosso espírito, um cuidado permanente com nossas emoções, sensações. Esse zelo é que permitirá navegarmos nas ondas imprevisíveis da existência sem naufragarmos ou nos tornarmos autômatos.

Ao seguir as regras de bem viver do senso comum sem nenhum questionamento, pouco a pouco vai se perdendo a capacidade de ouvir a si mesmo. Assim, contaminados pelas sugestões obtusas, o tédio se instala, pois sem o contato com nosso ser mais profundo, nossa resposta a vida é pré-fabricada, e aquilo que seria um mar de possibilidades se reduz a águas estagnadas cujo visgo aprisiona em rotinas expostas publicamente como modelo de felicidade, apenas para ocultar o vazio alienante na vida privada. Essas são as pessoas consideradas normais e aprovadas socialmente. Pessoas que fazem qualquer coisa pelo status e pelo poder que ditaram que ela tinha que ter; se sustentam no poder sem postura ética, e acreditam que a caridade ocasional absolve. Suportam por longos anos situações que as violentam, só para manter as aparências, inventam um personagem social que não se relaciona de verdade com ninguém, claramente porque intimamente são inteiramente desprovidas de um relacionamento real consigo mesmas.

As pessoas que não apenas vivem, mas existem, geralmente são consideradas sonhadoras, utópicas, loucas, sofrem bastante com isso, entretanto com o tempo percebem que sua sensibilidade é um tesouro que possuem, e que não há nada mais plenificante do que ser um espírito livre.

As pessoas que apenas vivem, estão sempre tentando desautorizar, destruir ou copiar aqueles aspectos que elas julgam que seja apenas uma manobra de efeito das pessoas que existem.


Foto: O céu anda na terra - J. Pedro Martins - Portugal

Mas, é impossível atingir ou imitar as pessoas que escolhem existir, simplesmente porque o mundo delas é outro, é um mundo feito de busca, de aventuras, poesia, da autenticidade que se tece a cada dia, da coragem de transpor abismos, de descer ao inferno do ser para alcançar o céu da liberdade interior. Desde cedo, intuem o caminho da meditação, e embora possam não conhecê-lo pelo nome, sentem que para elas crescer é uma aventura interminável!



Foto: Ana Cristina Cannas - Afresco - Portugal

Além-mim


O mar se revela e aparece

Ora agitado, ora calmo

Maré cheia, maré baixa

Profundo e misterioso

Convidativo, inesperado

Meu ser mira o mar e nele estou refletida

Há mar, como eu...

Há mar em mim

Mas o mar não sabe que é mar

E eu, que igualmente não sei quem sou

Sei assustadoramente que sou

Ele me confronta com seu confortável não-saber

Indo e vindo sem saber que é mar

Eu, indo e vindo-a-ser

Sabendo que existo e existe o mar

Que não sabe que é mar, que não sabe o que é amar

Tão-pouco sabe o que é a-mor-te recordar todos os dias

Esquecer todos os dias

Além-mar, todas as possibilidades

Além-mim, todas as possibilidades, além do mar

Aí nos encontramos: ambos insondáveis!


Margareth Bravo


Foto: Duarte Almeida - Cores do Além -Portugal -


Essa postagem é dedicada com carinho, ao meu amigo e incentivador Sérgio Provisano, aos jovens que me escreveram relatando que se sentem oprimidos pela família e pela sociedade, e a todos que buscam preservar sua identidade existencial.

terça-feira, 30 de março de 2010

Dois Olhares uma visão : Liberdade!

Foto: Fidalgo Pedrosa - um passado bem presente -

Não há como deixar de constatar que num mundo tão plural e caótico, cuja população estimada para 2010 é de 7 bilhões de habitantes, que uma nova linguagem necessita ser partejada, uma linguagem que nos proteja de nós mesmos e do sistema opressor que nos faz reféns em suas infindáveis teias.

A internet me parece ser um veículo capaz de dar voz aos nossos anseios, de mobilizar, informar, denunciar, reduzir as distâncias, promover intercâmbio, impedir atrocidades, entre tantas maravilhas. Ela sem dúvida nos oferece um novo filtro, sendo uma poderosa ferramenta de transformação, mas ainda, será nossa escolha, nosso foco, nossa responsabilidade fazer desse instrumento um condutor decisivo para nossa participação nessa viagem pelo belo planeta Terra.

Foto:J.Pedro Martins - (N)um quadrado d'oiro Portugal

Assisti ao vídeo sobre Eduardo Marinho, através do blog do companheiro de viagem Adriel – Eterno Retorno, que por sua vez, soube do vídeo pelo link deixado pelo blog Balaio Variado em comentário ao seu artigo O esvaziamento da Arte, e que agora para contribuir com essa corrente de reflexão publico também.

Postado no You Tube em novembro de 2009, o vídeo vem causando polêmica, e muitas adesões ao blog Observar e Absorver onde Eduardo Marinho expõe suas idéias e sua arte - lá no seu blog, assim como no You Tube - jovens declaram que sofreram uma transformação, em contato com elas. As pessoas podem criticar o livre pensamento de Eduardo, entretanto, a sua fecundidade está no fato dele ser pragmático, e isso é inegável. Toda sua fala é baseada em experiências, não é um mero discurso, (como é tão comum hoje em dia), dissociado da prática. A maior coragem que verifico em Eduardo, é a de olhar para dentro, se questionar, ser um observador de si mesmo. Ele abandonou o exército e a arma que o faria atirar como um autómato, sua arma agora, é sua expressão autêntica de vida.

Pensando tristemente em como vivemos um tempo esquisito, onde pessoas apontadas como “celebridades” são aquelas que despejam baboseiras num programa líder de audiência e de faturamento, saí procurando alternativas, referências reais de pessoas exemplares, então fui dar uma olhada na revista eletrônica Via Política (livre informação e cultura) e com grande alívio, encontrei o sensível cineasta e também pensador Luiz Rosemberg Filho, ele havia acabado de postar um texto onde discorre sobre quão desafiador é exercer a liberdade " além dos limites impostos pela ordem dominante" por isso o curta-metragem denominado $em Título, " passa por um outro registro, mais adequado a um uso criativo da desobediência como virtude e potência" que é um outro olhar sobre o tema – liberdade. Então deixo aqui os dois vídeos para nossa reflexão,além dos links para os textos.


Foto: Egberto Simoni - Cores cativas - Brasil

Micronto:

O planeta azul estava em grave risco. Seus habitantes exerciam cada vez mais sua vocação: comunicação. E foi justamente isso que os salvou.


Margareth Bravo

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mistério : Maiakóvski Vive!

Foto: Hester - Libéria
Quando o mundo atual, nos oferece tantas nulidades, assistir ao espetáculo – Mistério Bufo – é como sentir uma rajada de vento puro no espírito. Não vou descrever a montagem originalíssima, mas falar do clarão que se abre através proposta lúcida e urgente em tempos tão obscuros em que navegamos entorpecidos para o futuro, numa embarcação completamente avariada, sem notarmos a emergência da restauração, ou sem sequer percebê-la. Então, quando vejo o esforço e a dedicação de todos os envolvidos na realização da peça Mistério Bufo, sinto uma imensa gratidão. Sim! Eles conseguem fazer renascer Maiakóvski (1893-1930) – e mais que isso, junto com Maiakóvski ressuscitam todos os poetas e todos aqueles que sonharam e se arriscaram por um mundo melhor. A ressurreição do poeta, é também, a simbólica ressurrreição do ser humano, mas, por uma via extraordinária, o nosso mover o mundo, no lugar de ser movido por ele. Na leitura atualizada dos dramaturgos Rosyane Trotta, Fabio Ferreira e Cláudio Baltar, fica ressaltado de forma contundente, o risco a que está sujeito o planeta Terra, tanto do ponto de vista da sobrevivência do planeta, quanto aos valores que nos norteiam. Durante o processo itinerante do espetáculo, somos lançados num universo intemporal, como representantes do humano desde que o mundo é mundo. Somos a família humana! E quando chegamos ao futuro apontado pelo realizadores, somos confrontados com o compromisso da ressurreição humana, no sentido de olhar de frente para quem somos e o que queremos. É um choque de realidade! Mas, há nele um frescor, um sopro de esperança!
Não conheço de perto o histórico da concepção e montagem, mas posso imaginar o desafio. Um projeto audacioso, corajoso como esse, requer persistência e um desejo ardente de prosseguir! Isso, é mover o mundo! Eu me inclino em reverência a essa bela chama, onde quer que eu a perceba! Tudo nessa peça, é impecável – cenografia, figurinos, iluminação, trilha, acrobacia, preparação corporal, produção da Galharufa Produções Culturais, e tudo mais! Mas sugiro que assistam a peça , não porque é um sucesso, mas sim, por ser absolutamente necessária.

Margareth Bravo

Leiam o artigo de Marcos Francisco Ferreira sobre o processo de criação do espetáculo, na revista eletrônica Questão de Crítica que contém também um vídeo com trecho da peça.

Vejam a resenha da Revista Bula sobre o livro: “Maiakóvski — O Poeta da Revolucão” Editora Record (559 páginas), do russo Aleksandr Mikhailov, com prefácio de Alexei Bueno e tradução de Zoia Prestes.



E então, que quereis?...
Maiakóvski

Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades.
Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado.
As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.

(1927) Tradução: E. Carrera Guerra In Maiakóvski –
Antologia Poética Editora Max Limonad, 1987

O Amor

Maiakóvski

Um dia, quem sabe, ela, que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo,
sorridente, tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame de mil nadas, que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me, nem que seja só porque te esperava como um poeta, repelindo o absurdo quotidiano! Ressuscita-me, nem que seja só por isso! Ressuscita-me! Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo de casamentos, concupiscência, salários. Para que, maldizendo os leitos, saltando dos coxins, o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia, que o sofrimento degrada, não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo: - Camaradas! Atenta se volte a terra inteira. Para viver livre dos nichos das casa. Para que doravante a família seja o pai, pelo menos o Universo; a mãe, pelo menos a Terra.

(1923) Tradução Haroldo de Campos

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Somos todos poemas inacabados


Foto: DDiArte - Dançando com o Azul

Chegamos tarde para os Deuses e cedo demais para o Ser. O homem é um poema inacabado.

Martin Heidegger

Afetamos o mundo com nossas atitudes, e somos afetados por todas as atitudes do mundo. O sistema capitalista, cada vez Mais nos propõe como estratégia de consumo o individualismo, que contraditoriamente, tem promovido a uniformização e totalitarismo, como se fosse possível romper com a cadeia de interelações humano-cosmológicas. Isolados em nossos pensamentos, dúvidas e medos, nos perguntamos: que mundo é esse? Como chegamos a esse caos? Não compreendemos como mergulhamos num processo cego que nos faz crer, que olhando para fora e pagando por uma felicidade fabricada, ditada por um modelo poderoso e, no entanto, frágil e ilusório, seremos mais felizes. E assim, perdermos o foco principal, nossa real natureza interior, nosso árduo exercício de ser, sendo a cada dia, cientes e fiéis a nossa busca de sentido.

Talvez, estejamos realmente prestes a um naufrágio coletivo, talvez, a tecnologia possa nos oferecer soluções para os riscos ambientais eminentes, a tragédia mais que anunciada. Mas o que nos cabe agora? De que forma, podemos contribuir para que o planeta terra, possa imaginar e construir um futuro que nos honre como seres desenvolvidos? Conquistamos gigantesco progresso, mas a humanidade parece não ter atingido maturidade proporcional ao seu crescimento. Repetimos os mesmos erros, agimos com inconseqüência, negligenciamos a grande família humana. Abrimos mão das coisas simples e naturais. O ego tomou o lugar das nossas consciências, o orgulho e o egoísmo dirigem as condutas. Nossas crianças e jovens estão crescendo num mundo que causa grande apreensão e insegurança, e o que é pior, falta de significado. O que podemos fazer?

Vinha escrevendo até aqui, totalmente insatisfeita, sentindo insuficiência no meu propósito de transmitir algo que realmente traduzisse meus sentimentos tão abalados pelas condições atuais de nosso planeta, quando fui arrebatada pelo texto e análise impecável de José Castello para o livro As Pequenas Raposas de Lillian Hellman – ed. José Olympio. Talvez, na frase em que o colunista tenta compreender o estilo literário da escritora, cheio de pudor, (segundo ele) possa estar a resposta as perguntas que vinha fazendo. Ele diz: “O sucesso é bom, mas é perigoso. Ele nos fixa em imagens suntuosas, nos cobra uma coerência e uma constância que não temos, e - o pior – inibe o que temos de mais humano: a vocação para o erro.”

Nesse sentido, podemos pensar a espécie humana como um imenso sucesso, principalmente, considerando a história e o vertiginoso progresso que temos alcançado nos mais diferentes segmentos. Mas será que temos clareza dessa vocação para o erro de que nos fala José Castello? Será que escreveríamos uma história digna de um planeta tão paradisíaco, se tomássemos consciência de nossa propensão ao erro? E por fim Castello pergunta: “O que seríamos, se o medo não nos dobrasse?”.

Sim! O que seríamos? Se fizéssemos de nossas palavras ações, de nossa indignação, participação. Não apenas esperar melhores soluções, mas desenvolvê-las. Olhar para dentro, ousar acessar nossa fonte de luz, enfrentar sanções e censuras que nos impedem de arriscar por um mundo mais fraterno e justo, um mundo que se percebe tão semelhante na dor, no medo, e que no fundo, simplesmente deseja mais amor e solidariedade. O resto já encontramos pronto, uma velha e bela casa, o paraíso que habitamos.

Margareth Bravo

clique e amplie Foto: Ines - Um lugar

“ Coloquei minha casa sobre o nada, por isso todo o mundo é meu.” Goethe

Me diz... de cima do seu muro

O que me reserva o futuro?

Eu que mesmo com medo vou no escuro, agora te pergunto:

Será que você que está lá pode adivinhar?

Somente sombras, ou nossa única certeza de destino?

O futuro não existe como fato consumado, ele mora no presente, naquilo que você desejar, naquilo que você arriscar.

Eu viajo até o futuro, só para te acordar.

Para dizer que o presente é o único tempo que existe e o único lugar.

Margareth Bravo

Foto: Arquivo pessoal

Depende de nós

Ivan Lins e Vitor Martins

Depende de nós
Quem já foi ou ainda é criança
Que acredita ou tem esperança
Quem faz tudo pra um mundo melhor

Depende de nós
Que o circo esteja armado
Que o palhaço esteja engraçado
Que o riso esteja no ar
Sem que a gente precise sonhar

Que os ventos cantem nos galhos
Que as folhas bebam orvalhos
Que o sol descortine mais as manhãs

Depende de nós
Se este mundo ainda tem jeito
Apesar do que o homem tem feito
Se a vida sobreviverá

Depende de nós
Quem já foi ou ainda é criança
Que acredita ou tem esperança
Quem faz tudo para um mundo melhor



domingo, 1 de novembro de 2009

Brasil, o Gigante que Dança !

Foto: Escultura do artista Geraldo Lopes( Branco) arquivo pessoal.

Mesmo em plena era da ultra comunicação, pode acontecer paradoxalmente, de algo nos escapar, de algo não chegar ao nosso conhecimento, ou chegar tardiamente, por motivos diversos, inclusive pelo excesso, pelo grande volume diário de informação, que nos mergulha num mar tantas vezes revolto de notícias e desnotícias. Pois bem, está em cima da hora, mas me sinto inquieta, e uma necessidade de divulgar como quem cumpre um dever, mas um dever do coração.

No Brasil, já há muito, criou-se o hábito de falar mal do nosso país. Isso é terrível, tanto pior quando vindo dos próprios brasileiros, na maioria das vezes desinformados sobre suas próprias potencialidades... Ah! Como o Brasil precisa de um espelho! Temos nos destacado mundialmente em vários segmentos da Ciência à Moda, da Arte ao Esporte, e isso naturalmente, só ocorre por um único motivo e mérito: o empenho de brasileiros que exercem a vontade e a cidadania, contra todas as impossibilidades, contra todos os governos e desgovernos pelos quais já passamos, contra toda política maniqueísta, todas as atitudes lesa-pátria. Nós, brasileiros, vamos driblando os obstáculos que nos impedem de enxergar nossa grandeza, nossa magnitude, e assim numa dança de improviso, abrigando cada gesto, cada possibilidade, vamos crescendo a olhos vistos, mas ainda nos falta um olhar que dê conta de tão gigante corpo-nação, que como um bailarino possuído pela Deusa da dança e da música, busca em incessante gôzo um salto para o futuro!





" Cada gesto é um pequeno mundo"

"Os corpos são o lugar da dança"




A 18ª edição do Festival Panorama de Dança 2009 está aí para confirmar minhas palavras. O Brasil vem há anos obtendo destaque no cenário internacional da dança, e foi a energia e sensibilidade de pessoas assim como o curador , crítico, e pesquisador Roberto Pereira (foto) falecido em junho, que possibilitou instruir nosso olhar para um panorama antes velado. Ele será justamente homenageado na noite de abertura do Festival.
Eu não vou me estender, já que toda a programação e as informações podem ser obtidas aqui - Festival Panorama da Dança 2009. Por favor, explorem o site, e se orgulhem como eu, dos brasileiros envolvidos nesse grande movimento da dança no Brasil! Aproveitem o impulso da dança e conheçam também, o maravilhoso site - idança.net onde encontramos tudo sobre o mundo da dança.

Pequena historinha imaginada da criação:
Deus criou o mundo, em seguida criou a dança e viu que estava tudo perfeito... dançou, dançou, dançou...
Mas como se sentiu sozinho, resolveu arranjar companhia. Então, criou Adão e depois, animado com o seu feito, de sua costela,( da costela? Não teria parte mais interessante?Não podia ser do coração?) tratou de criar Eva. Daí, logo os dois estavam dançando um pas de deux alegremente, e Deus, enciumado, e sendo já velho conhecido do assunto, resolveu dar seus pitacos de coreógrafo.
- Não, não, não dancem com a serpente!

E deu no que deu. E até hoje, os seres humanos buscam através da dança e da arte sua liberdade perdida!

obs: Acho que Deus anda repensando o caso. O único problema é que Ele tem a eternidade para pensar!

Margareth Bravo

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Brasil Rural Contemporâneo - Um novo Brasil

" Aqueles cuja esperança é forte, vêem e apreciam todos os sinais da nova vida e estão prontos a todo instante para ajudar no nascimento daquilo que está pronto para nascer.”

Eric Fromm


Adoro o termo contemporâneo, seja associado à música, a dança, ou a demais manifestações, mas nunca essa palavra teve uma aplicação tão ampla, quanto no Evento Brasil Rural Contemporâneo VI Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária – que começou no dia 7 e vai até 12 de outubro na Marina da Glória. Todos os detalhes e são muitos, no site do Ministério do Desenvolvimento Agrário. (MDA)
São 25 mil metros quadrados, da ma
is arrojada iniciativa que eu já pude assistir no Brasil, realmente, é de emocionar, nada de obras faraônicas, para ficar para a posteridade, mas a exposição de um programa de reforma agrária moderno, produtivo com medidas eficientes e justas, com capacidade para promover um progresso incomensurável para o nosso país. Já não era sem tempo do Ministério do Desenvolvimento Agrário ocupar com ações, um lugar do tamanho do Brasil.


O sistema de cooperativas como maior expressão da possibilidade do humanismo posto em prática. Devemos ressaltar o árduo trabalho efetuado pelo Sebrae que surgiu em 1972 para estimular o empreendedorismo e o desenvolvimento do Brasil, e aqui reverencio o esforço de todos aqueles que em conjunto se empenharam para que isso fosse realidade. Assim como devemos nos congratular com todos os organismos que deram suporte para iniciativas construtivas e vitoriosas que apostaram na cooperação e na dignidade humana. Dessa forma, podemos constatar pela alegria dos expositores, o quanto é gratificante poder permanecer em suas terras e delas obter o sustento e a realização, revolucionando assim o antigo modelo do êxodo rural, onde se abandonava o campo em busca de oportunidades que lá já se encontravam e careciam apenas, de apoio e organização. O novo paradigma joga por terra literalmente, os velhos e agressivos métodos que nada propõem a não ser invasão.

Fiquei sensibilizada conversando com expositores, destaco Luzineide de Uauá, e Socorro de Mossoró, ambas apaixonadas e orgulhosas de suas terras, que num depoimento entusiasmado, me fizeram ver uma nova face do Brasil, um Brasil para se olhar de novo. E para isso já existe inclusive uma nova modalidade de turismo – o Turismo Rural. Dá gosto verificar a versatilidade de produtos como o Umbu e o Babaçu, e tudo que pude experimentar no mais alto padrão de qualidade, além da enorme surpresa com o palmito de pupunha, uma verdadeira delícia dos deuses. O programa de bibliotecas rurais Arca das Letras (desde 2003) nos deixa com a impressão de que dá para ler o Brasil de uma forma diferente.


Sugiro que ao visitarem a Feira, além de degustarem todas as delícias e adquirirem os diversos e belos produtos, aproveitem também a oportunidade para conversar um pouco com os expositores, eles são a melhor medida para nos dar a dimensão desse grandioso trabalho.




Tecnopop








As imagens acima do fotógrafo oficial Eduardo Aigner, são tão especiais, que tive dificuldade de escolher, entretanto, todas podem ser apreciadas no site do MDA. Quero registrar que o tratamento de imagem e concepção de montagem do evento, é um espetáculo a parte, porém não consegui descobrir seus criadores. Sem exagero, saí da Marina da Glória, com a sensação de ter visitado um pedaço do paraíso. Não percam!!!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Simplesmente Beth Goulart!

Foto: Lula Lopes

Fiquei completamente extasiada com a peça Simplesmente eu. Clarice Lispector; encenada, adaptada e dirigida por Beth Goulart com a supervisão de Amir Haddad.

Vou me limitar a compartilhar aqui minhas impressões porque não me contenho de vontade de tecer os melhores elogios a esse espetáculo, em tudo e por tudo impecável!

A rede está repleta de maravilhosas e enaltecedoras críticas, as especializadas como a de Bárbara Heliodora, e a de blogueiros especiais como Jorge Fortunato, meu amigo, com quem assisti a peça.

Beth Goulart, em minha opinião ascendeu ao Olimpo. É impressionante constatar como ela encarna Clarice Lispector e passa de personagem a intérprete com tamanha maestria e leveza. Mas, não pensem que isso se deu de forma casual, a atriz, fez uma imersão durante dois anos, tendo inclusive utilizado a psicanálise como ferramenta de seu primoroso trabalho conduzida pela psicanalista Daisy Justus, além de outras pesquisas relatadas por ela, no site Grandes Talentos.

E Clarice? Clarice revive! E como se não bastasse, ao final da apresentação, depois de ter nos inundado com a mais pura arte, Beth Goulart ainda partilhou com o público generosamente o sucesso da noite, agradecendo pelo silêncio, pela contribuição da energia emanada pela platéia com a qual interagiu. Sinalizou ainda, que esse trabalho, é uma forma de tocar a pessoas, (tal como na sabedoria oriental e presente no I Ching), para que sejam melhores com elas mesmas, e depois e em conseqüência, melhores, em suas casas, bairros, cidades, países finalmente assim, estaríamos de fato contribuindo para um mundo melhor! Só posso agradecer a Clarice e a Beth, por tamanho empenho, sensibilidade e grandiosidade de espírito!

Como escreveu a escritora: “A arte é o vazio que a gente entendeu”.

E ficou claro (ou Clarice) que Beth Goulart entendeu.

Deixo aqui um trecho do texto Perdoando Deus, que pode ser lido na íntegra no blog Legião Estrangeira, em homenagem a Clarice.

“... Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ideologicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem podia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato?...”

Eu, assim como Clarice me perdôo, perdôo a Deus... e aos ratos, mesmo a ratazana que me atacou quando eu estava grávida, o rato que derrubou o pintor na escada, e todos os ratos que cruzaram ou ainda podem cruzar meu caminho, sinto profunda compaixão por eles, e assim, não é preciso que eu invente Deus, Ele é, somos nós!

Por alguma necessária e maravilhosa sincronia vários acontecimentos envolvendo Clarice Lispector estão ocorrendo, inclusive o Instituto Moreira Salles acabou de encerrar uma exposição de suas telas em guache com seu talento de pintora pouco revelado. Detalhes sobre a trajetória da peça e outros eventos relacionados a escritora aqui.

Saiba também, sobre a biografia do norte-americano Benjamim Moser, que ensejou torná-la mais conhecida no mundo. Muito se escreveu e se escreve sobre Clarice, mas para os que desejam se aprofundar ficam as sugestões:

Clarice: Uma vida que se conta. Nádia Batella Gotlib. Ed. Ática - 1995

Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector.Teresa Cristina Montero Ferreira. Ed. Rocco -1999

O Discurso da falta em Clarice Lispector. Gilda Plastino. E. Edifieo- 2008

No vídeo abaixo, um trecho de sua última entrevista, para a TV Cultura em 1977, mas são cinco partes, que merecem ser vistas.

sábado, 25 de abril de 2009

Momentum Perfeito - sintonia existencial

Foto: Chanca - Ana Red

Conta-me sobre o mundo, mas segura minha mão para que a vertigem não me deixe cair, conta-me sobre o existir, mas me dá um segundo para que eu possa respirar.

Na infância, todos nós passamos algumas vezes por uma experiência indescritível que nos arrebata e toma de assalto todos os nossos sentidos, quando ficamos plenamente expandidos e unificados com o todo. Esse estado de arrebatamento não se anuncia, não é previsível, vou chamá-lo de * Momentum Perfeito – sintonia existêncial - quando se atinge uma espécie de êxtase inexplicável pelo fato de simplesmente estar vivo, um sentimento de integração e unidade ocorre, mas não é possível controlá-lo, tão pouco provocá-lo, e na medida em que se tenta retê-lo, ele escapa, e tão sutis são seus limites, que a tentativa de explicá-lo pode conter o risco de nos lançar no labirinto da de-pressão existencial, quando somos invadidos pelo insondável mistério de existir, é preciso aprender a senti-lo. Ainda hoje o universo é tão grandioso e eu me sinto uma menina pequena engolida pelo mundo e sua metáforas, então eu peço, muita delicadeza e respeito com a sensibilidade das crianças, isso permitirá que no futuro, os arrecifes de memórias, desabrochem sementes guardadas, grávidas de momentuns perfeitos, essa é a sanidade possível que nos compete cuidar e permitir.

Margareth Bravo

* derivado da física

Foto: Passeio na Cascata - Ezequiel Vieira


Ninguém melhor que o queridíssimo poeta Manoel de Barros, com seu texto Achadouros, para exemplificar o que acabo de descrever, e a foto abaixo além de estar em perfeita sintonia, é uma homenagem a ele, um amante dos pássaros como eu:


"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores d o que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apresada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em achadouros de infância. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador d e achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada à costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. Hoje encontrei um baú cheio de punhetas."

Foto: Paz ... subtítulo Ver é pouco, olhar não chega, experimenta sentir... -
José Luis Almeida Albuquerque


Por uma dessas felizes coincidências que não se explica, quando estava para publicar esse post, recebi o livro Educação Infantil no Tempo Presente do escritor Marcos Meira, para se ter uma noção de como o livro me impactou, basta dizer que passei a madrugada acordada me deleitando e me surpreendendo com o vigor e poder curativo de suas idéias, veja o trecho abaixo:

"... ainda encontramos pessoas que imaginam que educar é preencher a criança com aquilo que ela não sabe, ignorando o que ela nos revela a cada dia que passa. Uma criança, por exemplo, acorda suavemente e procura tirar proveito de cada momento. Não quer perder os detalhes da vida. E é nessa ludicidade de sentir o pulsar alegre do coração - nessa capacidade de brincar com o tempo - que devemos nos mirar para apreender o grande mistério da vida."


Foto: O Garoto - Marcos Meira