
Foto: Leyla Emektar – Turquia – menina com pássaros
“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
Fernando Pessoa
Somos educados desde pequenos a viver corretamente, a seguir regras pré-estabelecidas; o problema é que ninguém nos ensina a existir. Existir não é recurso pronto, é um caminho de autodescoberta constante, requer estar atento ao mundo interior e seus sinais. É preciso desenvolver uma percepção do que é confortável para nós, e o que de fato move nosso espírito, um cuidado permanente com nossas emoções, sensações. Esse zelo é que permitirá navegarmos nas ondas imprevisíveis da existência sem naufragarmos ou nos tornarmos autômatos.
Ao seguir as regras de bem viver do senso comum sem nenhum questionamento, pouco a pouco vai se perdendo a capacidade de ouvir a si mesmo. Assim, contaminados pelas sugestões obtusas, o tédio se instala, pois sem o contato com nosso ser mais profundo, nossa resposta a vida é pré-fabricada, e aquilo que seria um mar de possibilidades se reduz a águas estagnadas cujo visgo aprisiona em rotinas expostas publicamente como modelo de felicidade, apenas para ocultar o vazio alienante na vida privada. Essas são as pessoas consideradas normais e aprovadas socialmente. Pessoas que fazem qualquer coisa pelo status e pelo poder que ditaram que ela tinha que ter; se sustentam no poder sem postura ética, e acreditam que a caridade ocasional absolve. Suportam por longos anos situações que as violentam, só para manter as aparências, inventam um personagem social que não se relaciona de verdade com ninguém, claramente porque intimamente são inteiramente desprovidas de um relacionamento real consigo mesmas.
As pessoas que não apenas vivem, mas existem, geralmente são consideradas sonhadoras, utópicas, loucas, sofrem bastante com isso, entretanto com o tempo percebem que sua sensibilidade é um tesouro que possuem, e que não há nada mais plenificante do que ser um espírito livre.
As pessoas que apenas vivem, estão sempre tentando desautorizar, destruir ou copiar aqueles aspectos que elas julgam que seja apenas uma manobra de efeito das pessoas que existem.
Foto: O céu anda na terra - J. Pedro Martins - Portugal
Mas, é impossível atingir ou imitar as pessoas que escolhem existir, simplesmente porque o mundo delas é outro, é um mundo feito de busca, de aventuras, poesia, da autenticidade que se tece a cada dia, da coragem de transpor abismos, de descer ao inferno do ser para alcançar o céu da liberdade interior. Desde cedo, intuem o caminho da meditação, e embora possam não conhecê-lo pelo nome, sentem que para elas crescer é uma aventura interminável!
Foto: Ana Cristina Cannas - Afresco - Portugal
O mar se revela e aparece
Ora agitado, ora calmo
Maré cheia, maré baixa
Profundo e misterioso
Convidativo, inesperado
Meu ser mira o mar e nele estou refletida
Há mar, como eu...
Há mar em mim
Mas o mar não sabe que é mar
E eu, que igualmente não sei quem sou
Sei assustadoramente que sou
Ele me confronta com seu confortável não-saber
Indo e vindo sem saber que é mar
Eu, indo e vindo-a-ser
Sabendo que existo e existe o mar
Que não sabe que é mar, que não sabe o que é amar
Tão-pouco sabe o que é a-mor-te recordar todos os dias
Esquecer todos os dias
Além-mar, todas as possibilidades
Além-mim, todas as possibilidades, além do mar
Aí nos encontramos: ambos insondáveis!
Margareth Bravo
Foto: Duarte Almeida - Cores do Além -Portugal -
Essa postagem é dedicada com carinho, ao meu amigo e incentivador Sérgio Provisano, aos jovens que me escreveram relatando que se sentem oprimidos pela família e pela sociedade, e a todos que buscam preservar sua identidade existencial.
Acho que foi o Mar, ou a Baía de Guanabara, que a truxe até mim. Lindo e comovente seu texto. Beijo!
ResponderExcluirLindíssimo e super assertivo Margareth. Um grande beijo!
ResponderExcluirOlá Daniel! Que bom receber sua visita! Saudades e um outro grande beijo
ResponderExcluirOlá amigo! Quem nos aproximou foi a amiga mineira Margareth Duval que é um mar de gentileza e sensibilidade! Muito obrigada pelas suas palavras e sua compahia! beijos
ResponderExcluirOi, querida!
ResponderExcluirLendo, agora, com mais calma, a postagem inteira. Digo "mais calma" porque a fase é de "mar bravio". rsrs
beijo grande!
ah, sempre a leio, embora pouco comente por achar irrelevante o que teria a dizer em relação ás sua, sempre, tão "benditas" palavras.
Megzita, que poesia mais linda! O texto também! Belíssimos! Ainda bem que no meu mar, tem uma onda como você, amiga!
ResponderExcluirBeijos,
Dri
Auci que tudo flua no seu mar e obrigada por sua atenção e carinho! beijos
ResponderExcluirDri querida!E você além de ser uma onda no meu mar é também um anjo com quem tenho o prazer de compartilhar amizade e recreios nessa vida!beijos
ResponderExcluirMeg querida,
ResponderExcluirEis aqui um cidadão que existe neste mundo selvagem! Mas comecei a existir há pouco tempo, pois quando mais jjovem, realmente, somos oprimidos com tantas ditaduras e ficamos um tempo amordaçados, presos. Porém, vem o dia da libertação e passamos a existir para nós mesmos e para o mundo.
Veja só a falta que vc faz nessa blogosfera cheia de textos vazios. Seus posts são sempre reflexivos e inspirados. Não nos tire o direito de ler você.
Beijos sinceros do
Jorge
Meg querida, você sempre, como o inesperado, traz uma surpresa... e deixa o coração da gente, o meu em especial, radiante. é claro que fiquei todo bobo com o fato de teres dedicado o tópico a mim, não sei se sou merecedor dessa gentileza, mas confesso estar envaidecido com isso, ainda mais de forma pública como foi feito.
ResponderExcluirColoquei antes um comentário mas, ao tentar postar,ocorreu um erro, por isso não sei se ele vai chegar antes deste... enfim, "são as trapaças da sorte" e como as coisa que postas são recheadas de beleza e poesia, vai, de volta, uma das que eu, particularmente adoro, é de 1913, de Maiakóvski, poeta do qual sou eterno fã, a tradução é de Haroldo de Campos. Fique com ela e com um beijo meu, super carinhoso.
ALGUM DIA VOCÊ PODERIA?
Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceanao.
Nas escamas de um peixe de estanho
li lábios novos chamando.
e você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
Olá Margareth, há muito que andei por aqui desde seu último post e só agora encontrei um novo post, que por sinal, juntando-se ao seu comentário recente no meu blog, retiro dois "perceptos" das quais vou ficar me masturbando para retirar brisas de força para viver; um deles é um trecho deste seu post, e outro é o que pra mim me surgiu como uma frase descomunal a partir do seu comentário: comento-os abaixo. Ao ler seus textos tenho a estranha sensação de que você consegue fazer resistência sem ser "pessimista" (tenho um medo dos sentidos que se podem dar a essa palavra, mas sinto seguro para dizer por aqui sem que ela ressoe algum sentido grave); isso me agrada porque vejo como uma forma de coragem. Todas minhas alegrias vêm antes pelo meu modo de ser pessimista, ou mais precisamente, um modo de ser que vê a vida como um irremediável, um horror... e só a partir daí é que um copo de água pode ser o suficiente para me endoidecer; detalhes que nos arrancam do mundo e faz o corpo ser atravessado por sensações incrivelmente gostosas e potentes, como uma formiga atravessando a rua, o som das folhas secas arrastando numa noite de vento musicando nos ouvidos, um sorriso de uma mulher que me hipnotiza... enfim, são detalhes como estes, absurdos pra mim mas lancinantes com as cargas de conteúdos que eles me trazem sem que eu saiba explicá-los, que me salvam de uma vida que seja só horror. Deixo um forte abraço e fico na ânsia do seu próximo post.
ResponderExcluir"As pessoas que não apenas vivem, mas existem, geralmente são consideradas sonhadoras, utópicas, loucas, sofrem bastante com isso, entretanto com o tempo percebem que sua sensibilidade é um tesouro que possuem, e que não há nada mais plenificante do que ser um espírito livre." - Como foi aconchegante ler esse conteúdo, faz-me tanto sentido; e o meu "baú" onde essas coisas que nos tornam, muitas vezes, estrangeiros, tem muita beleza e horror convivendo juntos.
"O melhor tempo e lugar para suportar o nada ainda continua sendo o aqui e agora."
Coloquei ambos os trechos em um lugar da minha agenda que tenho costume de recorrer para retirar forças de vida; junto com vários outros autores, também tem a "Margareth Bravo" :D
quanto tempo belezinha!!!!!!
ResponderExcluirquanto tempo que a gente não se cruza por ai, melhor dizendo, pelo dihitt, coisa fácil e costumeira de acontecer, antigamente.
recebo seus escritos.
beijo.
sempre penso naquele tempo quando vc não tinha blogg e fico contente que vc tenha encontrado este. um alento.
Jorge, Provisano e Adriel,
ResponderExcluirO incentivo de vocês é fundamental para dar significado ao exercício de me expressar através a escrita. Sinto-me honrada com o comentário de vocês e muito grata!
Demorei a responder pq fiquei sem palavras, as vezes isso acontece, é quando fico emocionada.
um abraço muito carinhoso e obrigada, obrigada, obrigada
Meg, nunca ficamos, aqueles que, como você, "ainda pensa e é melhor do que nada", sem palavras. Até mesmo porque, as palavras, as ideias, não nos pertencem, estão aí, soltas no ar, apenas esperando que nós, os que pensam, como você, eu até modestamente me incluo nesse rol, as recolham, as ideias, as palavras e, conectemô-las, dando sentido lógico ou não, se esse for o caso. Nós, os que pensamos e existimos, não passamos de meros colhedores de ideias e palavras, numa tentativa de dar sentido à vida, se é que isso é possível. Fique pois com um super e carinhoso beijo e que nunca te faltem palavras e se por acaso faltar, não te preocupes, elas estão aí, ao seu redor, ao nosso redor, é só colhê-las...
ResponderExcluirDepois de muito, muito tempo sem lhe ver ou de ter notícias suas, fiquei nada surpreso ao constatar, quando descobri este blog, que aquela menina que conheci há tanto tempo atrás continua (obviamente) cada vez mais inteligente, descolada, irrequieta e afetuosa.
ResponderExcluirO seu blog é fantástico, a começar pelo título e pelo texto logo abaixo. É repleto de assuntos palpitantes abordados de forma poética, eficiente e precisa.
Parabéns, um forte abraço e um carinhoso beijo para você.
P.S.: Abraços (sem beijos) também ao Provisano Maiakovski.
Meu querido e inesquecível amigo Serginho! Que surpresa boa receber sua visita e ter notícias suas!Quantas lembranças queridas me acendem a memória. Você meu guia pelos caminhos da música, o privilégio de desfrutar de seu bom gosto e sensibilidade musical, ouvíamos juntos o melhor dos anos 70 sem saber que seriam clássicos e que marcariam para sempre nossa existência.Fico curiosa de saber o que meu amigo anda ouvindo. Ainda sinto o cheiro da grama dos jardins do Liceu e nossos longos papos nas manhãs de nossa juventude habitam eternizados minha memória afetiva, embora com uma saudade doída de não poder estar lá de novo. Gostaria de ter um contato seu, email, rede social, qualquer meio para manter nosso contato. Quero saber mais de você e sua família.
ResponderExcluirMuito obrigada por suas palavras!
Um grande e carinhoso abraço e o desejo de sabê-lo feliz!
da sua amiga, grata por você ter feito parte de uma importante etapa de minha vida.