Esse blog é provisório,como provisória é a vida e tudo que nos cerca. Procuro meu blog, como quem procura a si mesma, e nesse sentido, se achar é se perder e se perder pode ser o princípio de se encontrar.
Os ditadores começam a cair pelo mundo, entretanto o ditador mais ferrenho – O Capitalismo não mostra a cara, e para estabelecer cada vez mais seu poderio, conta com a colaboração de duas outras ditaduras, a mídia e a publicidade, espécies de braços fortes da estrutura capitalista. Nada mais importa, nenhum benefício pode ser maior que olucro, nem mesmo se o preço for a estruição do planeta, o genocídio de milhares de crianças no mundo, a guerra nossa de cada dia que alimenta o monstro insaciável do Capitalismo, com carnificina e manchetes trágicas nos jornais. A mídia como um grande espelho que reflete o real, tem um papel de extrema responsabilidade no estímulo das subjetividades, na reflexão sobre o mundo contemporâneo, assim como a publicidade com seu constante papel de interprete dos desejos coletivos.
Ser contemporâneo é atuar em nosso tempo frente aos desafios que ele nos provoca. O mundo sofre de uma necrose moral, de tal modo, que as partes ainda saudáveis de nosso corpo planetário são violentamente rechaçadas como aconteceu com o movimento Ocupe Wall Street pelo mundo. Por que será que a mídia mundial, não apoia o Movimento que se alastra mundo afora cada vez mais vigoroso, um fenômeno sem precedentes na história, singular, genuíno? Nada poderia ser mais importante que esse movimento. E a publicidade com seu olho clínico capturando sempre a onda do momento e colocando sobre ela sua embalagem, por que passados tantos dias de resistência, criatividade, numa onda contagiante, o Movimento Ocupe Wall Street pelo mundo ainda não foi contemplado com um pequeno espaço de reflexão? Porque eles se deixaram reduzir a duas operações: somar e subtrair, e o movimento traz o conceito e o desejo da práxis de multiplicar e dividir.
É urgente dimensionar o que está acontecendo, um planeta a beira do naufrágio, que insiste em não olhar para o novo. O desconhecido assusta, e por pior que seja a ordem perversa em que nos metemos, ela é uma ordem ainda que perversa, conhecida. Fomos enfeitiçados pela linguagem como colocado por Wittegenstein, e a ordem do discurso como demonstrado por Foucault vem da lei e a lei que rege o mundo hoje é o Capital, ele se articula também com a técnica, que como no Mito de Sísifo cai na regressão ao infinito, mas a questão da técnica faz Heidegger meditar profundamente sobre o poema de Holderlin: “Mas ali onde há o perigo, ali também,/Cresce o que salva.” Heidegger, ainda sinaliza que o cuidado, é o apropriar-se de si mesmo, para uma existência autêntica, precisamos, em suas palavras, estar atentos ao chamado, na era da hiper comunicação temos a oportunidade de ouvir o chamado do ser, do espírito do tempo de nossa época. Vamos ocupar o mundo!
A violência é um sintoma. A doença é carência de poder, a insignificância, a injustiça – em suma, a convicção de que a pessoa está abaixo do humano e não tem ponto de referência no mundo. Para empregar um termo conveniente, identifiquei a doença comoimpotência, sem entretanto deixar de reconhecer plenamente que a violênciaexige também, para ser desencadeada, alguma promessa, um desespero combinado com a esperança de que as condições só podem melhorar através da dor ou da morte de alguém. ( Rollo May, p.172) 1
Não é possível examinar a tragédia de Realengo sem começar pelo ponto de partida da vida do jovem que a provocou, bem como não podemos deixar de inserir sua história no contexto social em que vivemos.
Filho adotivo, acolhido numa família numerosa, sendo a mãe biológica, vítima de patologia psíquica grave que a levou a cometer suicídio. Não sabemos que tipo de ambiente o rapaz enfrentou no lar que o adotou. Mesmo as crianças filhas legítimas, vez por outra são tomadas pela terrível desconfiança de terem sido adotadas o que acarreta uma enorme angústia, então podemos imaginar o desafio de uma criança adotada que não tenha sido devidamente amparada emocionalmente. Seu comportamento descrito por familiares, vizinhos, colegas de escola e trabalho, sempre foi arredio no mínimo incomum, e estranhamente, a única manifestação conhecida para tratar do problema teria sido a visita ao psiquiatra que abandonou. Talvez abandonado por todos, o jovem tenha buscadorefugio em seu mundo imaginário onde teria poder; o poder de ser visível e inocente. Fixado no mundo virtual da internet como ficou demonstrado, foi buscar uma identidade que o fizesse existir no mundo vasculhando nos retalhos maltrapilhos de nosso atual tecido social, nele encontrando informações que por faltar orientação o moldaram. A violência segundo Rollo May, é ausência de significado, num mundo que fomenta e mitifica banalidades, não ter expressão social nenhuma é uma radical exclusão. Welligton, sentindo-se sem saída no mundo real, apelou para uma saída de emergência, a sua longa barba, não fez dele um profeta, não deu a ele algo que o purificasse, era urgente precisava morrer para finalmente existir e expurgar uma dor que ele não sabia dar nome. De que forma ele poderia se tornar visível, inocente e poderoso ao mesmo tempo para o outro? Através do buraco da fechadura do mundo virtual e da mídia ele via o mundo, e exatamente por esse canal o mundo poderia finalmente enxergá-lo em seu Reality Show, assim como sentenciou: “descobrirão quem sou da maneira mais radical”. Numa época em que a celebrização tornou-se compulsiva e quase obrigatória ele precisava criar um outro eu que ao mesmo tempo lhe desse a chance de existir e num último ato celebrizar-se ainda que por um viés distorcido. Na sua realidade ele disse sentir-se bom, inocente, fraco, indefeso, vítima de: “pessoas cruéis, covardes que seaproveitam da bondade, da inocência, da fraqueza de pessoas incapazes de se defender” assim como ele durante anos sentiu calado e sozinho. Ele acreditava que não tinha mais lugar na sociedade, que de alguma forma já havia sido expulso da casa/mundo, mas antes de sair, apesar de tão recluso e calado, se utiliza de um recurso que o transformará numa “celebridade póstuma” e expõe a platéia/mundo seu depoimento, numa espécie de confessionário com câmera. Para provar sua inocência, garantir seu pertencimento social ele se transforma num “poderoso vingador” dos “: irmãos que morreram no passado” e para isso, o recurso que dispõe por lhe faltar uma forma de simbolizar sua dor é sacrificar inocentes, chamando assim atenção para algo que: ” não é exclusivamente pelo que é conhecido como Bulling”, mas para além disso, toda uma sociedade que não lhe exigia satisfação, por “ser falsa e covarde” Assim ele coloca no paredão toda o público perplexo em busca de uma lógica que certamente não está em Welligton por mais absurdo que possa parecer, pois trata-se de um sintoma social, que assim como uma febre, sinaliza a necessidade de exames mais profundos da forma como estamos conduzindo nossas vidas em sociedade.
Em memória das crianças vitimadas pela tragédiae em respeito e solidariedade aos familiares precisamos abrir um debate mais profundo onde toda a sociedade se envolva pois :“ O que implica alguma coisa relacionada à solidariedade humana: somos todos parte do trágico acontecimento. Sem uma rendição da própria consciência, ninguém pode hoje se proteger sob sua capa moral e pretender uma imunidade ao que está acontecendo lá fora.” (Idem, p 144).
A historicidade do ser - óleo sobre tela 50 x 70 - fev, 2011
O mundo ainda se encontra abalado sob o impacto causado pela recente tragédia no Japão, algo como um espelho se quebrou.
O país do sol nascente possui ao longo de sua história traços marcantes quanto ao seu pensamento filosófico, apesar da cultura ocidental por um preconceito acadêmico, praticamente desconsiderar a filosofia oriental, quer queiram quer não, o oriente possui suas * correntes filosóficas (clique para verificar). Dentre tantos atributos da cultura japonesa, um dos que se destaca, é a vida pautada na tradição natural e isso engloba nada menos que tudo, desde a relação de cada um com seu mundo interior, até a relação com a sociedade. Um exemplo dessa prática é a tradição japonesa de honrar os mais velhos como possuidores de uma sabedoria dada pela vivência que deve sempre ser agregada à atualidade. As cenas que chamaram atenção do mundo onde os jovens adolescentes alimentavam afetuosamente os idosos vitimados pela tragédia, demonstraram não apenas solidariedade, mas a dignidade dada ao ancião naquela sociedade.
A grande lição que o Japão transmite ao mundo agora é a mesma que transmite a si mesmo necessariamente, porque em algum momento que não sei precisar historicamente, esse país se deixou contaminar pela cultura ocidental identificando-se com aqueles que os elegeram como inimigos, a saber: os Estados Unidos. Não sabemos a fundo as conseqüências dessa contaminação cultural, mas certamente ela se tornou um desafio para a filosofia japonesa.
Hoje quando o mundo inteiro acompanha perplexo a tragédia que abateu o Japão, compartilhamos imagens marcantes que são como uma metáfora de nossos tempos – objetos mitificados pela sociedade de consumo, bóiam indiferentes num mar de destruição, e os símbolos mais caros aos desejos humanos estão ali reduzidos ao nada. Dessa forma abre-se uma profunda ferida narcísica no coração da humanidade. O choque se dá pela percepção imediata de nossa total falta de controle sobre a natureza e de como os valores que têm nos guiado são frágeis. De alguma forma todos nós nos perguntamos: isso poderia acontecer no meu país? Serei eu uma futura vítima de uma tragédia dessa proporção?
Para o Japão, se dá diferente, pois ao ver naufragar tantas vidas e se deparar com a incalculável perda material, a nação tem a oportunidade de redescobrir seus valores filosóficos da tradição natural.
Tanto para o Ocidente, quanto para o Oriente o espelho foi quebrado: o homem-deus morreu! A noção de finitude não vem mais como uma questão individual, mas agora podemos inaugurar uma nova ética – a finitude planetária – porque esse posicionamento vai determinar a sobrevivência da civilização humana.
Mas fortemente depois 2ª guerra mundial, os Estados Unidos retêm a hegemonia sobre a maior parte do mundo, dado possuir um discurso prático de propaganda e marketing pessoal, que vende com êxito o seu ideal de sucesso, entretanto, seu maior escopo é manter a gigantesca indústria armamentista além de enviar seus jovens para as guerras por amor à pátria. Os incontáveis recursos empregados (inclusive na fabricação de guerras, cujo único objetivo é o lucro) nessa indústria se fossem direcionados para a harmonia do ser humano na terra, traria imensas possibilidades de um salto no percurso histórico do homem com a perspectiva de responsabilizar a todos pelo planeta. Assim nos toca intensamente a conduta dos Cento e oitenta de Fukushima, uma mostra evidente de como o fato de serem fiéis a tradição da cultura filosófica pôde se revelar numa postura ética exemplar para o mundo.
Nas diversas reportagens sobre a tragédia, uma delas se destacou aquela que demonstrou um modo de lidar com o inesperado bastante incomum – o silêncio. Uma japonesa entrevistada pela
TV Bandeirantes resumiu o significado do silêncio pungente adotado por seus conterrâneos: Não explodimos em emoção agora, pois vamos precisar dessa emoção no futuro como energia para uma explosão de reconstrução.” Sob forte tensão, propriamente pelo abalo da tragédia, somado as dificuldades oriundas dela, como falta de alimentos, desalojamento, perdas e ainda o desafio do rigoroso inverno, os japoneses mantinham o silêncio e a ordem. Esses são traços característicos da filosofia japonesa, e por ter que exercê-laem toda sua plenitude de forma tão abrupta, é que o espelho se quebrou e o Japão pode ver a si mesmo com atávicos recursos filosóficos sólidos da tradição natural para resgatar-senão apenas do tsunami provocado pela natureza, mas também daquele tsunami despercebido provocado pela contaminação da cultura ocidental.
Para nós ocidentais, ficam duas grandes questões – a primeira, de que podemos aprender muito com a cultura oriental, essa que praticamente excluímos do douto saber ocidental, embora o filófoso Heidegger tenha apontado que o caminho para a filosofia era fazer uma ponte entre ocidente e oriente, essa questão permanece pouco ou nada discutida. A segunda, é que estamos todos na barca da existência e nos perguntamos o que é isso? Para onde caminha o homem? Continuaremos distanciados da tradição quando nossos ancestrais tinham por técnica o diálogo com a natureza? Agora temos uma extraordinária oportunidade de responder junto com o Japão. Frente aos riscos planetários que acabamos de sofrer, somos levados a pensar a existência humana no planeta Terra. Pensaremos?
Ikenishi Gonsui (1650–1722)
kogarashi no hate wa ari keri umi no oto
Tradução:
O vento cortante Assim chega ao seu destino – Barulho do mar.
Buson
kangetsu ya mon naki tera no ten takashi Tradução: A lua fria - / Sobre o templo sem portão / O céu tão alto.
Foto: Leyla Emektar – Turquia – menina com pássaros
“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
Fernando Pessoa
Somos educados desde pequenos a viver corretamente, a seguir regras pré-estabelecidas; o problema é que ninguém nos ensina a existir. Existir não é recurso pronto, é um caminho de autodescoberta constante, requer estar atento ao mundo interior e seus sinais. É preciso desenvolver uma percepção do que é confortável para nós, e o que de fato move nosso espírito, um cuidado permanente com nossas emoções, sensações. Esse zelo é que permitirá navegarmos nas ondas imprevisíveis da existência sem naufragarmos ou nos tornarmos autômatos.
Ao seguir as regras de bem viver do senso comum sem nenhum questionamento, pouco a pouco vai se perdendo a capacidade de ouvir a si mesmo.Assim, contaminados pelas sugestões obtusas, o tédio se instala, pois sem o contato com nosso ser mais profundo, nossa resposta a vida é pré-fabricada, e aquilo que seria um mar de possibilidades se reduz a águas estagnadas cujo visgo aprisiona em rotinas expostas publicamente como modelo de felicidade, apenas para ocultar o vazio alienante na vida privada. Essas são as pessoas consideradas normais e aprovadas socialmente. Pessoas que fazem qualquer coisa pelo status e pelo poder que ditaram que ela tinha que ter; se sustentam no poder sem postura ética, e acreditam que a caridade ocasional absolve. Suportam por longos anos situações que as violentam, só para manter as aparências, inventam um personagem social que não se relaciona de verdade com ninguém, claramente porque intimamente são inteiramente desprovidas de um relacionamento real consigo mesmas.
As pessoas que não apenas vivem, mas existem, geralmente são consideradas sonhadoras, utópicas, loucas, sofrem bastante com isso, entretanto com o tempo percebem que sua sensibilidade é um tesouro que possuem, e que não há nada mais plenificante do que ser um espírito livre.
As pessoas que apenas vivem, estão sempre tentando desautorizar, destruir ou copiar aqueles aspectos que elas julgam que seja apenas uma manobra de efeito das pessoas que existem.
Mas, é impossível atingir ou imitar as pessoas que escolhem existir, simplesmente porque o mundo delas é outro, é um mundo feito de busca, de aventuras, poesia, da autenticidade que se tece a cada dia, da coragem de transpor abismos, de descer ao inferno do ser para alcançar o céu da liberdade interior. Desde cedo, intuem o caminho da meditação, e embora possam não conhecê-lo pelo nome, sentem que para elas crescer é uma aventura interminável!
Essa postagem é dedicada com carinho, ao meu amigo e incentivador Sérgio Provisano, aos jovens que me escreveram relatando que se sentem oprimidos pela família e pela sociedade, e a todos que buscam preservar sua identidade existencial.
Não há como deixar de constatar que num mundo tão plural e caótico, cuja população estimada para 2010 é de 7 bilhões de habitantes, que uma nova linguagem necessita ser partejada, uma linguagem que nos proteja de nós mesmos e do sistema opressor que nos faz reféns em suas infindáveis teias.
A internet me parece ser um veículo capaz de dar voz aos nossos anseios, de mobilizar, informar, denunciar, reduzir as distâncias, promover intercâmbio, impedir atrocidades, entre tantas maravilhas. Ela sem dúvida nos oferece um novo filtro, sendo uma poderosa ferramenta de transformação, mas ainda, será nossa escolha, nosso foco, nossa responsabilidade fazer desse instrumento um condutor decisivo para nossa participação nessa viagem pelo belo planeta Terra.
Assisti ao vídeo sobre Eduardo Marinho, através do blog do companheiro de viagem Adriel – Eterno Retorno, que por sua vez, soube do vídeo pelo link deixado pelo blog Balaio Variado em comentário ao seu artigo O esvaziamento da Arte, e que agora para contribuir com essa corrente de reflexão publico também.
Postado no You Tube em novembro de 2009, o vídeo vem causando polêmica, e muitas adesões ao blog Observar e Absorver onde Eduardo Marinho expõe suas idéias e sua arte - lá no seu blog, assim como no You Tube - jovens declaram que sofreram uma transformação, em contato com elas. As pessoas podem criticar o livre pensamento de Eduardo, entretanto, a sua fecundidade está no fato dele ser pragmático, e isso é inegável. Toda sua fala é baseada em experiências, não é um mero discurso, (como é tão comum hoje em dia), dissociado da prática. A maior coragem que verifico em Eduardo, é a de olhar para dentro, se questionar, ser um observador de si mesmo. Ele abandonou o exército e a arma que o faria atirar como um autómato, sua arma agora, é sua expressão autêntica de vida.
Pensando tristemente em como vivemos um tempo esquisito, onde pessoas apontadas como “celebridades” são aquelas que despejam baboseiras num programa líder de audiência e de faturamento, saí procurando alternativas, referências reais de pessoas exemplares, então fui dar uma olhada na revista eletrônica Via Política (livre informação e cultura) e com grande alívio, encontrei o sensível cineasta e também pensador Luiz Rosemberg Filho, ele havia acabado de postar um texto onde discorre sobre quão desafiador é exercer a liberdade " além dos limites impostos pela ordem dominante" por isso o curta-metragem denominado $em Título, " passa por um outro registro, mais adequado a um uso criativo da desobediência como virtude e potência" que é um outro olhar sobre o tema – liberdade. Então deixo aqui os dois vídeos para nossa reflexão,além dos links para os textos.
Quando o mundo atual, nos oferece tantas nulidades, assistir ao espetáculo – Mistério Bufo – é como sentir uma rajada de vento puro no espírito. Não vou descrever a montagem originalíssima, mas falar do clarão que se abre através proposta lúcida e urgente em tempos tão obscuros em que navegamos entorpecidos para o futuro, numa embarcação completamente avariada, sem notarmos a emergência da restauração, ou sem sequer percebê-la. Então, quando vejo o esforço e a dedicação de todos os envolvidos na realização da peça Mistério Bufo, sinto uma imensa gratidão. Sim! Eles conseguem fazer renascer Maiakóvski (1893-1930) – e mais que isso, junto com Maiakóvski ressuscitam todos os poetas e todos aqueles que sonharam e se arriscaram por um mundo melhor. A ressurreição do poeta, é também, a simbólica ressurrreição do ser humano, mas, por uma via extraordinária, o nosso mover o mundo, no lugar de ser movido por ele. Na leitura atualizada dos dramaturgos Rosyane Trotta, Fabio Ferreira e Cláudio Baltar, fica ressaltado de forma contundente, o risco a que está sujeito o planeta Terra, tanto do ponto de vista da sobrevivência do planeta, quanto aos valores que nos norteiam. Durante o processo itinerante do espetáculo, somos lançados num universo intemporal, como representantes do humano desde que o mundo é mundo. Somos a família humana! E quando chegamos ao futuro apontado pelo realizadores, somos confrontados com o compromisso da ressurreição humana, no sentido de olhar de frente para quem somos e o que queremos. É um choque de realidade! Mas, há nele um frescor, um sopro de esperança! Não conheço de perto o histórico da concepção e montagem, mas posso imaginar o desafio. Um projeto audacioso, corajoso como esse, requer persistência e um desejo ardente de prosseguir! Isso, é mover o mundo! Eu me inclino em reverência a essa bela chama, onde quer que eu a perceba! Tudo nessa peça, é impecável – cenografia, figurinos, iluminação, trilha, acrobacia, preparação corporal, produção da Galharufa Produções Culturais, e tudo mais! Mas sugiro que assistam a peça , não porque é um sucesso, mas sim, por ser absolutamente necessária.
Margareth Bravo
Leiamo artigo de Marcos Francisco Ferreira sobre o processo de criação do espetáculo, narevista eletrônica Questão de Crítica que contém também um vídeo com trecho da peça.
Vejam a resenha da Revista Bula sobre o livro: “Maiakóvski — O Poeta da Revolucão” Editora Record (559 páginas), do russo Aleksandr Mikhailov, com prefácio de Alexei Bueno e tradução de Zoia Prestes.
E então, que quereis?...
Maiakóvski
Fiz ranger as folhas de jornalabrindo-lhes as pálpebras piscantes. E logode cada fronteira distantesubiu um cheiro de pólvoraperseguindo-me até em casa. Nestes últimos vinte anosnada de novo háno rugir das tempestades. Não estamos alegres,é certo,mas também por que razãohaveríamos de ficar tristes? O mar da históriaé agitado. As ameaçase as guerrashavemos de atravessá-las,rompê-las ao meio,cortando-ascomo uma quilha cortaas ondas.
(1927)Tradução: E. Carrera Guerra In Maiakóvski – Antologia PoéticaEditora Max Limonad, 1987
O Amor
Maiakóvski
Um dia, quem sabe, ela, que também gostava de bichos, apareça numa alameda do zoo, sorridente, tal como agora está no retrato sobre a mesa. Ela é tão bela, que, por certo, hão de ressuscitá-la. Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame de mil nadas, que dilaceravam o coração. Então, de todo amor não terminado seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas. Ressuscita-me, nem que seja só porque te esperava como um poeta, repelindo o absurdo quotidiano! Ressuscita-me, nem que seja só por isso! Ressuscita-me! Quero viver até o fim o que me cabe! Para que o amor não seja mais escravo de casamentos, concupiscência, salários. Para que, maldizendo os leitos, saltando dos coxins, o amor se vá pelo universo inteiro. Para que o dia, que o sofrimento degrada, não vos seja chorado, mendigado. E que, ao primeiro apelo: - Camaradas! Atenta se volte a terra inteira. Para viver livre dos nichos das casa. Para que doravante a família seja o pai, pelo menos o Universo; a mãe, pelo menos a Terra.
Chegamos tarde para os Deuses e cedo demais para o Ser. O homem é um poema inacabado.
Martin Heidegger
Afetamos o mundo com nossas atitudes, e somos afetados por todas as atitudes do mundo. O sistema capitalista, cada vez Mais nos propõe como estratégia de consumo o individualismo, que contraditoriamente, tem promovido a uniformização e totalitarismo, como se fosse possível romper com a cadeia de interelações humano-cosmológicas. Isolados em nossos pensamentos, dúvidas e medos, nos perguntamos: que mundo é esse? Como chegamos a esse caos? Não compreendemos como mergulhamos num processo cego que nos faz crer, que olhando para fora e pagando por uma felicidade fabricada, ditada por um modelo poderoso e, no entanto, frágil e ilusório, seremos mais felizes. E assim, perdermos o foco principal, nossa real natureza interior, nosso árduo exercício de ser, sendo a cada dia, cientes e fiéis a nossa busca de sentido.
Talvez, estejamos realmente prestes a um naufrágio coletivo, talvez, a tecnologia possa nos oferecer soluções para os riscos ambientais eminentes, a tragédia mais que anunciada. Mas o que nos cabe agora? De que forma, podemos contribuir para que o planeta terra, possa imaginar e construir um futuro que nos honre como seres desenvolvidos? Conquistamos gigantesco progresso, mas a humanidade parece não ter atingido maturidade proporcional ao seu crescimento. Repetimos os mesmos erros, agimos com inconseqüência, negligenciamos a grande família humana. Abrimos mão das coisas simples e naturais. O ego tomou o lugar das nossas consciências, o orgulho e o egoísmo dirigem as condutas. Nossas crianças e jovens estão crescendo num mundo que causa grande apreensão e insegurança, e o que é pior, falta de significado. O que podemos fazer?
Vinha escrevendo até aqui, totalmente insatisfeita, sentindo insuficiência no meu propósito de transmitir algo que realmente traduzisse meus sentimentos tão abalados pelas condições atuais de nosso planeta, quando fui arrebatada pelo texto e análise impecável de José Castello para o livro As Pequenas Raposas de Lillian Hellman – ed. José Olympio. Talvez, na frase em que o colunista tenta compreender o estilo literário da escritora, cheio de pudor, (segundo ele) possa estar a resposta as perguntas que vinha fazendo. Ele diz: “O sucesso é bom, mas é perigoso. Ele nos fixa em imagens suntuosas, nos cobra uma coerência e uma constância que não temos, e - o pior – inibe o que temos de mais humano: a vocação para o erro.”
Nesse sentido, podemos pensar a espécie humana como um imenso sucesso, principalmente, considerando a história e o vertiginoso progresso que temos alcançado nos mais diferentes segmentos. Mas será que temos clareza dessa vocação para o erro de que nos fala José Castello? Será que escreveríamos uma história digna de um planeta tão paradisíaco, se tomássemos consciência de nossa propensão ao erro? E por fim Castello pergunta: “O que seríamos, se o medo não nos dobrasse?”.
Sim! O que seríamos? Se fizéssemos de nossas palavras ações, de nossa indignação, participação. Não apenas esperar melhores soluções, mas desenvolvê-las. Olhar para dentro, ousar acessar nossa fonte de luz, enfrentar sanções e censuras que nos impedem de arriscar por um mundo mais fraterno e justo, um mundo que se percebe tão semelhante na dor, no medo, e que no fundo, simplesmente deseja mais amor e solidariedade. O resto já encontramos pronto, uma velha e bela casa, o paraíso que habitamos.